Folclore: Feiticeiras (bruxas), lobisomens,
boi tatá, Boi de mamão, Pau de fita
Terno de Reis, Cacumbi e Ratoeira

A mitologia Ilhõa

O imaginário ilhéu é ainda povoado por criaturas fantásticas, entre as quais destacam-se as bruxas e “lambisomes”. Quando de um casal nascem sete filhas, sem nenhum varão de permeio, fatalmente a primeira ou a última será bruxa. Para que isso não aconteça, a irmã mais velha deve ser madrinha de batismo da mais nova. Com frequência, são apontadas como bruxas mulheres que não são tuteladas por homens: mulheres de idade solteiras ou viúvas, que não frequentam a Igreja, que moram em lugares afastados. ElasO imaginário ilhéu é ainda povoado por criaturas fantásticas, entre as quais destacam-se as bruxas e “lambisomes”. Quando de um casal nascem sete filhas, sem nenhum varão de permeio, fatalmente a primeira ou a última será bruxa. Para que isso não aconteça, a irmã mais velha deve ser madrinha de batismo da mais nova. Com frequência, são apontadas como bruxas mulheres que não são tuteladas por homens: mulheres de idade solteiras ou viúvas, que não frequentam a Igreja, que moram em lugares afastados. Elas têm pacto com o Diabo, lançam “Mau-olhado” e acarretam enfermidades com seus bruxedos. Possuem o hábito de chupar o sangue das crianças, e mesmo de adultos, e transformam-se em mariposas para entrar nas casas pelo buraco da fechadura.

As crianças ainda não batizadas são preferencialmente atacadas, por isso devem dormir com a luz do quarto acesa. Para descobrir a bruxa que está chupando o sangue de alguém, deve-se socar a camisa do embruxado em um pilão. A bruxa sente dores tão fortes no corpo que logo aparece para pedir que a pessoa pare de pilar a camisa. Também a mulher que dá a mão canhota a apertar é sinal de que é bruxa. “Lambisome” é o nome local do lobisomem, fenômeno verdadeiramente universal. O “Lambisome” é um homem que, em noite de lua cheia, transforma-se em animal e vagueia pela noite a atacar transeuntes. Quando o homem se transforma em “Lambisome”, ela deixa as roupas na cama debaixo das cobertas, sai nu e se esfrega no calor de algum bicho. Ele se transforma no bicho cujo calor ele se esfregou. Pode ser um cachorro, um porco ou outro animal qualquer. Deve-se evitar andar na rua em noite de lua cheia porque ele pode atacar. Diversas outras entidades compõem a mitologia ilhôa. O “sete-cuias” é um demônio que ataca pescadores e canoeiros. A Encantada é uma bela mulher nua que aparece em lagoas, morros ou caminhos ermos. Há também assombrações e marombas. Marombas geralmente eram homens que colocavam peneiras na cabeça, um lençol branco e saíam à rua. Assim as ruas ficavam desertas e eles podiam visitar suas amantes. As pessoas achavam tratar-se de assombração.

Danças folclóricas

As chamadas danças folclóricas são, de todas as manifestações culturais tradicionais, aquelas geralmente mais conhecidas do público. Tanto mais conhecidas que chegam, com muita frequência, ao ponto de serem vistas, apresentadas e assimiladas, como a única expressão do que se convencionou chamar folclore.

A razão disto se dá pelo fato de que estas manifestações congregam  um conjunto altamente significativo de traços bastante palpáveis e distintivos – no mínimo, além de uma coreografia, um música e um figurino próprios – que as tornam, aos olhos dos observadores, originais, peculiares e exóticas. Tais características criam uma vantagem extraordinária sobre outras expressões de cultura menos distinguíveis e observáveis que lhes têm proporcionado possibilidades maiores de preservação (ou recriação) e mais amplas oportunidades de divulgação.

No município de Florianópolis, concretamente, o folguedo do Boi-de-mamão alcançou, contemporaneamente, maior expressão do que qualquer outra manifestação da cultura local. O movimento de sua coreografia, a alegria de sua música e o colorido de seu figurino são ingredientes de um “exotismo” impar. A ele é acrescida ainda, a característica de um forte apelo lúdico, que encanta especialmente o público infantil. Expressão também significativa obteve o Pau-de-fita que da mesma forma exerce forte atração pelos seus aspectos de exuberância.

Menos importância entre as danças locais obtiveram, por exemplo, o Cacumbi e a Ratoeira. Esta última, por uma aparente simplicidade de forma e conteúdo e a primeira, pelo quase desaparecimento de seus praticantes, tiveram dificuldades para permanecer. A seguir, fazemos uma breve descrição e algumas considerações sobre cada uma destas danças.

 

O BOI-DE-MAMÃO

O Boi-de-mamão é um folguedo de apresentação alegre e graciosa, que causa encantamento, sobretudo nas crianças. O seu tema, épico, é a morte e a ressurreição do boi. A ele se juntam uma música que alia improviso e cantoria, um número variado de personagens dançarinos, e atualmente, também um multicolorido figurino.

Um chamador comanda a apresentação, cantando em versos tradicionais e improvisados, chamando as diversas figuras, que desenvolvem a trama dançando ao som da cantoria. O boi é o principal personagem, que centraliza mais ou menos os demais; em determinado momento, ele morre, para adiante, ser revivido milagrosamente. Outras figuras tradicionais do folguedo são o Cavalinho, o Mateus, o Vaqueiro. Ao lado delas, surgem outros personagens, que foram sendo introduzidos com tempo e se incorporam efetivamente à manifestação. É o caso da Cabrinha, do Urso Branco, do Urso Preto, do Macaco Branco, do Macaco Preto, do Cachorro, do Marimbondo, da Maricota, do Valdemar (marido da Maricota), da Bernúncia, do Jaraguá (filhote que a Bernúncia dá à luz durante a apresentação). Não existe um número definido de figuras, dependendo este, do lugar e do grupo que apresenta a dança, não sendo rara a inovação.

O folguedo catarinense do Boi-de-mamão encontra congêneres espalhados pelo país: bumba-meu-boi, boi-bumbá, boi-de-reis, boizinho, boi-da-cara-preta, boi-pintadinho. Boi-calemba, entre outros.

Há muita controvérsia sobre a filiação do boi de mamão catarinense. Alguns dizem que descende dos bois de pano do norte, outros que veio diretamente de Portugal. Em Parintins, AM, por exemplo, eles dizem que o boi veio da Ilha de Madeira para o nordeste brasileiro. De qualquer maneira, em Florianópolis o folguedo foi chamado durante muito tempo de  boi de pano. Há uma ilustração do pintor espanhol Francisco de Goya de 1750, que retrata um boi de pano tal como os bois dos folguedos brasileiros.

Ao longo dos anos o Boi-de-mamão foi incorporando elementos que o tornou uma manifestação muita própria, com características diferentes dos seus congêneres. A diferença maior está no fato de ele ter deixado de ser trágico e dramático e se tornado cômico e lúdico, redundando num Boi-de-mamão leve e alegre.

A terrível Bernúncia, que “comeu Mané João, come pão, come bolacha, come tudo que lhe dão”, versão local do Grande Dragão chinês, e a Maricota (figura de mulher gigantesca que representa as descendentes de alemão), hoje indispensáveis nas apresentações do folguedo, são introduções relativamente recentes, da segunda metade do século XX. Elas contribuem para fazer a distinção de suas formas afins de outras regiões.

Duas hipóteses  disputam a explicação da origem da denominação local do folguedo. A mais corrente afirma ter sido a utilização de um mamão verde na confecção, às pressas, da cabeça de um boi, a razão pela qual a dança ganhou o nome. A outra considera o nome atual uma derivação de “Boi-mamão, seu significa “boi que mama”.

No boi-de-mamão tradicional, o canto é iniciado com versos de apresentação dirigidos ao dono da casa, em cujo terreiro o grupo irá brincar. Hoje os versos são dirigidos ao organizador da festa, à pessoa que fez o convite ou a uma autoridade presente.

De brincadeira organizada por crianças nas ruas e quarteirões do município o Boi-de-mamão se tornou um folguedo organizados por associações de bairro e grupos organizados. Muitos hoje já são pessoas jurídicas organizadas. O Boi-de-mamão da Associação do Bairro de Sambaqui, fundado em 1981, tornou-se um ícone na luta pela preservação do meio ambiente e da cultura popular. O Boi-de-mamão do Itacorubi, surgido na década de 1970, também teve um papel importante na cultura da Ilha de Santa Catarina. Muitos outros surgiram depois, de tal forma que hoje existem grupos organizados por todo o município de Florianópolis.

O desenvolvimento do turismo provocou algumas transformações no complexo cultural do Boi-de-mamão. A primeira alteração foi a profissionalização dos grupos que cultivam a manifestação. Hoje o boi já não sai de casa, apresenta-se em lugares públicos e principalmente em festas populares. O calendário tradicional de encenação que era entre o Natal e o carnaval foi substituído por apresentações ao longo de todo o ano. Surgiram apresentações diurnas, inconcebíveis no contexto que lhe deu vida e forma.

Pau-de-Fita

A dança do pau-de-fita é apresentada por pares (de oito a dozes) de damas e cavalheiros ( nos últimos anos a maioria dos grupos é constituído apenas por mulheres que se vestem também de homem) que evoluem à volta de um mastro, sobre cuja extremidade superior existe um círculo de madeira com furos, nos quais são presas as fitas que os dançarinos manobram. Acima desta roda de madeira fica o buquê (que se costuma dizer boquê) que é feito de catuto e que ao final da dança se abre e aparece um buquê de flores.

No desenvolvimento da dança, os pares de damas e cavalheiros proporcionam um belo espetáculo com alternados movimentos de trançamentos e destrançamentos das fitas. As fitas são enroladas no pau uma a uma por cada dançarino, depois aos pares e também imitando uma rede de pescaria. Depois as fitas são abandonadas e dança-se com os arcos que trazem trançados em um dos ombros.

Em variadas formas, a dança é encontrada em muitas partes do mundo. Na Inglaterra, por exemplo, ela aparece com recreação infantil típica das áreas rurais. Como manifestação mutiforme de cultura popular, o Pau-de-fita existe por quase toda a Europa e, em vários países da América. No Brasil, a dança existe em diversos estados com nomes variados: Dança das tranças, Dança das fitas, Dança do mastro, Mastro de fitas. Em Santa Catarina ela pode ser presenciada tanto nas áreas de colonização italiana, quanto nas de colonização germânica, no Planalto de Lages e no Oeste.

Tamanha frequência desta manifestação cultural por regiões diversas e colonizadas por diferentes povos, está certamente, ligada ao fato de ser ela cultivada desde épocas muito remotas. Há registros de sua presença na América já no século XVIII (Venezuela e Peru). Muito mais além, entretanto, vão os registros referentes ao Velho Mundo, atingindo mesmo a época do Império Romano, com a prática da dança entre os alamanos, povo germânico que ocupou o território da atual Alemanha.

Muitos pesquisadores acreditam ser o Pau-de-fita muito mais antigo, remontando a épocas anteriores à Era cristã, havendo quem advogue a hipótese de a dança ter existido na América pré-colombiana. Geralmente, os estudiosos concordam sobre o fato de o Pau-de-fita ser, na origem, um ritual de culto fálico, que comemora a fertilidade.   Confirma esta teoria o fato de a dança ter se desenvolvido basicamente entre povos praticantes da agricultura, funcionando como ritual de fertilidade.

Em Santa Catarina, as formas que encontramos abrangem duas categorias distintas. Os grupos teuto-brasileiros e aqueles ligados aos Centro de Tradição Gaúcha possuem características comuns de se apresentarem ao som de orquestras ou com sonorização mecânica, sem canto. Já os grupos de origem açoriana apresentam sua dança acompanhada de versos.

O pau-de-fita de Florianópolis é originário dos Açores. Seus números são orquestrados e acompanhados de cantoria. Os passos são muitos, entre eles, o tramadinho, a rede do pescador, o trenzinho e a famosa Trança feiticeira. O cantador, ou cantadora, através dos versos, vai  dizendo o que os dançarinos devem fazer.

O Cacumbi

A dança do Cacumbi, ou Ticumbi, é uma manifestação de cultura popular afro-brasileira e simbolizava, originalmente, uma guerra entre duas nações africanas. No sincretismo religioso brasileiro, a dança se integrou ao culto de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, com sua apresentação na véspera, ou no dia desses santos, no interior das igrejas.

Em Florianópolis o último grupo de Cacumbi foi o do capitão Francisco Amaro, falecido em 1991.

A dança do Cacumbi é formada por duas alas de marinheiros trajados com calças azuis e camisas brancas, sapatos brancos e chapéus enfeitados por quatros fitas, tendo um capitão ao centro, desempenhando o papel de chamador.

Os cantos  são denominados marchas e marchas-fogo e são acompanhados por música de pandeiro e batuque de tambores em várias toadas.

Originalmente, o ritual apresentava um cortejo real ao som de batuques, acompanhado de movimentos coreográficos. O rei e rainha eram coroados pelo capitão do grupo e cobertos por um manto bordado, que identificava a nação da qual eram soberanos. Com o tempo, este cortejo desapareceu, restando apenas uma “embaixada de guerra”, composta pelo grupo de marinheiros e uma Porta-bandeira.

No Nordeste brasileiro o cacumbi é conhecido como Baile-de-congos ou Congados.

Ratoeira

A ratoeira é uma dança de roda que acontecia durante os fandangos (bailes). Formava-se uma roda e as pessoas cantavam versos de improviso umas para as outras.

Um grupo variável de dançarinos (geralmente acima de dez), ligados uns aos outros pelas mãos, forma um círculo, sendo escolhido alguém do grupo para ficar no centro (a ratoeira). Este deve “puxar” a cantoria, cantando um verso de improviso para alguém da roda. O grupo canta o estribilho e aquele a quem foi dirigido o verso substitui o anterior e responde a provocação com outro verso. Enquanto isso a roda gira em passos pulados para a esquerda e para a direita. Muitos namoros surgiram a partir dos versos dirigidos aos bem amados. 

A cada verso o grupo todo canta o refrão:

Ratoeira bem cantada faz chorar, faz padecer, também faz um triste amante do seu amor esquecer

Meu galho de malva, meu manjericão, dá três pancadinhas no meu coração.

Ou

Meu galho de rosa, meu cravo encarnado, não posso viver sem te ter ao meu lado. 

Ou

Meu galho de malva, meu ramo de aurora, não posso passar sem te ver toda hora. 

 

De primeiro, a ratoeira era praticada durante os bailes, depois por crianças durante o recreio nas escolas. Hoje é praticada por grupos folclóricos constituídos por mulheres. Perdeu o sentido de “cantada” dirigida a um possível pretendente e ganhou um tom mais jocoso com versos decorados.

Boi de Mamão
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